“Atos Falhos”, mostra de Marcia de Moraes

(São Paulo, SP)

O conjunto de trabalhos apresentado por Marcia de Moraes em “Atos Falhos”, na Galeria Leme, parece atravessado por um movimento contínuo que se interrompe e se prolonga a cada desenho. À imagem de turbilhões contidos, as obras vibram com uma pulsação interna, ritmada por um eterno desencontro entre pleno e vácuo, entre cor e branco do papel.

Desenhando diretamente sobre o papel, sem um projeto prévio, Marcia de Moraes utiliza o desenho anterior como parâmetro para elaborar uma nova composição. À maneira de um cadavre exquis, é ele que sugere o traçado, as zonas de cores e as linhas de força.

Atualmente, por mais que os trabalhos conservem uma harmonia compositiva, na qual no seu conjunto as massas de cores se equilibram, é mais difícil discernir uma ordem subjacente ao desenho, que parece ser transpassado por uma corrente vertical ou horizontal, fazendo com que o olhar seja levado para fora dos limites da folha. Os vazios ganham em proporção, invadem toda a superfície dos desenhos, em uma trama intrincada de lacunas. É no ato mesmo de olhar que o hiato entre forma e fundo deve ser suprido.

Não à toa, é neste momento em que a ideia de ruptura se faz cada vez mais presente na sua obra, que Marcia de Moraes começa a desenvolver um trabalho de colagem. A artista utiliza fragmentos de seus desenhos, resquícios de potenciais composições, e os agencia em uma disposição nova que resulta em um emaranhado complexo de tramas e cores. A fragmentação de seus desenhos é aqui materializada por uma descontinuidade efetiva que se dá não somente pela interrupção do traçado, mas também, em um plano fisico, pela sobreposição dos diferentes planos de papel.

Cada vez mais, essa dinâmica de frestas que fissuram os desenhos e colagens de Marcia de Moraes, parece induzir um deslocamento do olhar. Essa ideia de quebra remete à noção psicanalítica de “atos falhos”, que dá nome à exposição. Conceito desenvolvido por Sigmund Freud no início do século xx, os atos falhos seriam erros em ações ou na fala causados pelo inconsciente, brechas no discurso e na lógica do pensamento linear. O fato é que tanto no seu processo – no qual uma obra, assim como seus eventuais erros ou defeitos, são o ponto de partida para próxima – quanto na condição de esboço sugerida pelos erros e traços de grafite deixados aparentes; ou ainda na presença de alguns elementos figurativos provindos do cotidiano: o trabalho de Marcia de Moraes parece remeter a tais deslizes de memória ou da fala sem motivo aparente.

Esses comportamentos compulsivos e atalhos inconscientes, segundo o psicanalista, teriam como intuito a realização de um desejo profundo e dissimulado. Nessa perspectiva, talvez a aspiração de Marcia de Moraes pudesse se cristalizar na remanescente busca pela perda de referências e pela vertigem suscitada no oscilar entre repetidos lapsos e uma continuidade que escapa pelas bordas do desenho.

“Atos Falhos”, mostra individual de Marcia de Moraes
Abertura: 23 de junho, 19h
Em cartaz até 1º de agosto

Galeria Leme
Av. Valdemar Ferreira, 130
Funcionamento: de terça a sexta, das 10h às 19h
Sáb: das 10h às 17h
T.: 11 3093.8184
info@galerialeme.com



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