rocha pitta

Coletiva “Quarta-feira de cinzas” apresenta 30 obras de 27 artistas brasileiros e estrangeiros

(Rio de Janeiro, RJ)

A Escola de Artes Visuais do Parque Lage recebe até novembro a exposição coletiva “Quarta-feira de cinzas”, terceira mostra do Programa Curador Visitante. Com curadoria de Luisa Duarte, a mostra apresenta trinta obras de vinte e sete artistas brasileiros e estrangeiros em diversos espaços da EAV Parque Lage.

expo

O título da exposição é retirado do filme homônimo feito em 2006 por Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander que surge como uma origem importante do pensamento desenvolvido pela curadora. É nesse clima pós-carnaval, quando a euforia dá lugar a uma tonalidade afetiva de caráter melancólico, que a exposição se insere para refletir as consequências de uma época pós-utópica; a aceleração do tempo e a perda da experiência, e a ruína como símbolo de uma época inconclusa e uma imagem potente para novas construções.

Leia abaixo o texto da curadora Luisa Duarte:
Em 1989, ano da queda do muro de Berlim, Leonilson inscreveu em dois trabalhos: “Leo não consegue mudar o mundo” e “Leo can’t change the world”. Entre “conseguir” e “poder”, outra versão possível para “can’t”, a frase denuncia sua impotência política.

Leonilson não está presente nesta exposição, mas surge como inspiração para o processo conceitual de “Quarta-feira de cinzas”. Note-se que a despeito de um enunciado pessimista, o próprio gesto criativo do artista põe em questão sua consciência do fracasso, uma vez verificada hoje sua permanência como artista fundamental para compreender a arte dos anos 1980-90.

“Quarta-feira de cinzas” deseja tocar justamente no intervalo promissor entre a sensação de impotência (donde o ceticismo) e uma esperança de transvaloração possível. Não seria o que teria levado Nietzsche a postular um “niilismo ativo”?

Hoje, nossos gestos mais íntegros parecem se desmanchar, nossas palavras esperançosas têm, repetidamente, um contraponto cruel em uma época que faz o elogio incessante da “eficácia”, da “competência”, da “agilidade”, retirando de ambos – gestos e palavras – seu quociente de vida e poder próprios, autônomos. Tudo opera para que nos adequemos ao que está aí, querendo nos fazer crer que qualquer desejo de transformação estrutural seja visto como sinônimo de ingenuidade. Facilmente podemos nos somar à legião de zumbis ventríloquos.

Como pode a arte apontar para uma zona de maior liberdade e pensar por si? Como habitar o presente, criar um futuro mais palpável (sabendo que o futuro já não é mais o que era), e escapar do tempo fadado à repetição, que é o tempo dos corredores dos shoppings, das feiras – homogêneo, circular, serializado? O tempo das subjetividades botox é repetitivo na mesma medida em que os objetos que a cercam são eternos, porque infinitamente substituíveis – eternos porque infinitamente descartáveis. A eternidade promovida pelos ciclos brevíssimos de consumo é a suspensão do futuro; permanecemos na cíclica manutenção do presente, em um tempo que se pretende sem máculas nem rachaduras, pior ainda: sem passado. Imersos nos desdobramentos de uma época pós-utópica, vivemos constantemente absortos, porém distraídos, correndo, atrasados sem saber ao certo o porquê ou a direção, vítimas de uma “frenética imobilidade”.

Essas são algumas das questões que deflagraram a organização das obras reunidas aqui em torno do título “Quarta-feira de cinzas”, em uma tentativa de construir outras temporalidades. Ao longo da exposição, determinados trabalhos lidam com a incompletude, outros acolhem uma quebra na linearidade temporal, sugerem desacelerações, pausas ou ainda caminham em direção a ruínas, sabendo que ali reside um solo fértil para outros mundos (im)possíveis.

Ir até as ruínas de um tempo não significa paralisia ou niilismo. Aprendemos com Walter Benjamin a potência que reside no que aparentemente é digno de esquecimento. Trata-se de narrar o presente a contrapelo, olhando outra vez para sua face às vezes bárbara, às vezes melancólica, mas quem sabe, ali mesmo, esteja a dimensão crítica e subversiva, delicada e poética, do mundo em que vivemos.

Durante o período da exposição, uma série de performances, conversas e exibição de filmes fazem parte da programação oficial. Veja abaixo:

CONVERSAS | Salão Nobre
21 de setembro de 2015, segunda-feira, às 19h | Gruta
Com Matheus Rocha Pitta

27 de outubro de 2015, terça-feira, às 19h | Salão Nobre
Com a diretora da EAV Parque Lage, Lisette Lagnado, e a curadora Luisa Duarte. Participação de Rosângela Rennó.

PERFORMANCES
24 de setembro de 2015,quinta-feira, às 18h | Entorno do Palacete
Manoela Medeiros | Deslocamento de paisagem
Julia Pombo | Entre o que se faz e o que se pode fazer [Ação 5]

CINE LAGE
24 de setembro de 2015, quinta-feira, 19h | Jardim, junto do Chafariz
Brasília: contradições de uma cidade nova, 1967. Joaquim Pedro de Andrade, 22′
Nada levarei quando morrer. Aqueles que me devem cobrarei no Inferno, 1981. Miguel Rio Branco, 19′
Limbo,2011. Cao Guimarães, 17′
Paradox of Praxis 1 (Sometimes making something leads to nothing), 1997. Francis Alÿs, 5′

PALESTRA
30 de outubro de 2015, sexta-feira, às 19h | Salão Nobre
Com Maria Rita Kehl, psicanalista e ensaísta, sobre “Aceleração e depressão”

CELEBRAÇÃO DE ENCERRAMENTO
5 de novembro de 2015, quinta-feira, das 19h às 23h | Pátio da piscina

“Quarta-feira de cinzas”, coletiva com Adriano Costa, André Komatsu, Cao Guimarães, Cinthia Marcelle, Clara Ianni, Laercio Redondo, Lais Myrrha, Marcelo Cidade, Marilá Dardot, Matheus Rocha Pitta e Sara Ramo
Curadoria de Luisa Duarte
Em cartaz até 9 de novembro
Entrada franca

Escola de Artes Visuais do Parque Lage
Rua Jardim Botânico, 414 – Jardim Botânico, Rio de Janeiro – RJ – CEP 22.461-000
eav@eav.rj.gov.br
Tel 21 3257.1800
Fax 21 3257.1822



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