tumblr_o0yhh23Foe1tdzokwo1_r1_1280

Abertura | “Guerra do tempo”, individual de Marilá Dardot

(São Paulo, SP)

A Chácara Lane, parte do Museu da Cidade de São Paulo, abre suas portas a partir de amanhã e recebe a individual de Marilá Dardot, “Guerra do Tempo”, que conta com a curadoria e texto de Douglas de Freitas.

tumblr_o0yhh23Foe1tdzokwo1_r1_1280

Leia abaixo o texto de Douglas de Freitas:
Em ‘Guerra del Tiempo’ o escritor cubano Alejo Carpentier reuniu em três contos, leituras distintas de tempo. No último deles, por exemplo, a ordem cronológica é invertida, o conto tem início com a morte do personagem, para no fim chegar ao seu nascimento. Assim o autor desafia o tempo, e faz o relógio girar ao contrário. A obra homônima de Marilá Dardot, realizada em 2012, é a leitura da artista em diálogo direto com Carpentier. Na imagem, ‘Guerra del Tiempo’ está no topo de três outros livros, que aumentam em escala, cada um deles com um tom de papel. O amarelecimento das páginas de cada um dos livros denuncia os diferentes tempos neles contidos.

A guerra do tempo de Marilá Dardot está reunida aqui, em quase quinze anos de lapsos, apagamentos, comunicações falhas, truncadas ou ainda silenciosas, onde jogos poéticos, semânticos e de poder se estabelecem em um constante exercício de apagar para se reinventar. Como em ‘Guerra del Tiempo’, é no vácuo de elementos que já estão no mundo que a artista atua, reescrevendo o sentido das coisas.

Se no vídeo ‘Hic et Nunc’, o aqui e agora da artista no ano de 2002, Marilá elenca as máquinas que movem seu trabalho, o tempo é o que move a exposição; é através dele que as coisas se solidificam e permanecem, ou se apagam e caem em esquecimento. Apagar é a ação necessária para ser possível tentar esquecer algo. Tentar porque, uma vez realizado, nada volta à estaca zero, tudo deixa seu rastro. Mas um tijolo só se firma sobre base sólida. É desse acúmulo de solidificações e apagamentos que se constitui o aqui e agora.

Marilá é uma colecionadora, seus trabalhos saem de sua biblioteca. O que já está em circulação no mundo é retirado para o mundo íntimo da artista, para então voltar à circulação com novo significado, nova configuração. Trechos roubados de livros formam seu acervo de matéria prima, e dão origem às obras. Os livros em si também se desconstroem e se realinham a novos propósitos e ações e, por último, o mundo comum, as notícias e informações que circulam na rua, que refletem o mundo em que vivemos, e que agora se fazem notar de outro modo, com delicadeza, silêncio e bom humor.

Marilá elegeu seus lemas, metas e filosofias em ‘Never to Forget’ de 2006 ou, traduzindo para o português, Nunca Esquecer. Apropriados de outros autores, estes lemas estão datilografados em um papel formulário encontrado em circulação no mercado, mas que foi impresso errado. Um ‘escrever certo por linhas tortas’. ‘Demão’, obra inédita realizada para a exposição, tem princípio próximo, mas deixa de partir da esfera íntima da artista, para rebater na História do País, no âmbito público e social. Na obra, lemas e slogans das diversas gestões federais do País e frases de manifestações populares, que vão de ‘Independência ou morte’ à atual ‘não vai ter golpe’ são pintadas sobre os painéis expositivos da Chácara Lane por pintores letristas, que antigamente pintavam propagandas políticas pelos muros da cidade. Umas sobre as outras, em ordem cronológica, as frases são veladas e sobrepostas, sem nunca apagar completamente a anterior, também ao modo do que acontece na cidade. Assim, Marilá edifica silenciosamente um monumento ao apagamento; mostra como a história, e por que não dizer o mundo, se constrói, uma coisa se sobrepõe a outra, mas nunca a apagando completamente, para o bem e para o mal.

O que impera de modo geral é a constatação de que, não importa de que lado do tabuleiro você joga, tudo aquilo que nos separa, língua, ideologia, ou modo de viver, é ao mesmo tempo universal, dá forma ao mundo em que vivemos, em uma sucessão de erros, acertos, apagamentos e novas construções. Tudo aquilo que nos une, é também o que nos separa.

“Guerra do Tempo”, indivudual de Marilá Dardot
Curadoria de Douglas de Freitas
Abertura: 30 de janeiro
Em cartaz até 17 de abril
Entrada franca



Copyright © Instituto Investidor Profissional